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Core Comunicação
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Ana Paula Todisco - anapaula@corecomunicacao.com.br
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Para mim fazer? Falar (e escrever) bem: essencial para a carreira e para os negócios Não há profissional, atualmente, que não tenha de redigir no dia-a-dia um e-mail ou um relatório. Isso significa que fica tudo registrado. Que sua escrita corre a empresa e muitas vezes ultrapassa os seus portões, levando com ela o nível de conhecimento do português de quem a redigiu. Se ele é fraco, pode acreditar que sua imagem em muitas empresas corre o risco de ficar prejudicada. Das duas uma: ou você mesmo, espontaneamente (e não "expontaneamente"), se inscreve num curso, até pedindo subsídio à empresa, ou a própria chefia pode "convidá-lo" a isso. Não é preciso que os erros sejam graves; basta que signifiquem carência de aperfeiçoamento, traduzida em incapacidade de concisão, de organização dos tópicos ou tropeços ortográficos e verbais, para exemplificar.
No Habib's, por exemplo, uma equipe de auditores externos participou de aulas de gramática, no segundo semestre do ano passado. E o que motivou a participação foi a tarefa cotidiana desses empregados, que é a de redigir relatórios para a empresa. A auditora Rosineide de Almeida Marcussi atua na Alsaraiva, do Grupo Habib's, e esteve nessa turma. Ela destaca que alguns desses documentos eram remetidos à presidência - o que, dependendo de quem os escrevia, causava certo mal-estar.
Antes de perceber a necessidade da reciclagem em português, o idioma era um entrave para Rosineide. "Nunca apreciei a língua, mas, depois do curso passei, a vê-la de forma diferente, porque as aulas foram dadas num clima agradável, o que facilitou a compreensão".
Segundo o gerente de treinamento do Habib's, Fábio Longo, a ideia da empresa para os auditores, em geral de nível universitário, foi mesmo aperfeiçoar a qualidade dos relatórios. Fábio diz que foram detectados erros, mesmo pontuais, tanto de forma, quanto de conteúdo. "Grande parte do mercado cobra uma segunda língua, mas a verdade é que, hoje, há problemas para utilização da primeira, que é a nossa própria", diz ele.
O Habib's pretende estender a iniciativa também ao quadro operacional da empresa, "que entende muito do negócio, mas tem baixa escolaridade", diz Longo. Falta de concordância e erros de grafia impedem até que se entenda o conteúdo, alega. Ele adianta que um telecurso é uma das ideias que serão postas em prática este ano. Longo revela, ainda, que também o pessoal das lojas vai participar das aulas, para aperfeiçoar o atendimento. Tais iniciativas fazem parte de uma ação maior, de levantamento de habilidades e competências dos vários grupos de profissionais do Habib's, que se diferenciam no perfil. "E uma das habilidades analisadas foi justamente a capacidade de escrever bem".
Diferencial
Sócia-diretora da empresa de consultoria Mariaca, Lucia Costa diz que sua equipe faz questão de mostrar aos candidatos a cargos executivos a importância atual de falar e escrever bem em português. Responsável pela área de transição de carreiras da empresa, Lúcia diz que é enfática ao abordar o tema com seus clientes. "Textos mal escritos podem tirar o candidato do processo de seleção. É coisa muito séria". E os candidatos, explica ela, já no processo de seleção entram em comunicação direta com a empresa onde pretendem trabalhar, via e-mails, particularmente. "Até num texto de agradecimento pela entrevista podem ser cometidos erros que vão comprometer o indivíduo perante a empresa pretendida". Lucia ressalta que os cursos de MBA de primeira linha já introduziram redação como item de aprovação dos candidatos. Esse aspecto, no entanto, ainda não é frequente nos processos de recrutamento e seleção das empresas em geral, mas a consultora garante que a boa escrita é requisito implícito "e muito forte hoje".
E-mails
"Olhamos tanto para o inglês nos últimos anos que nos esquecemos do português", diz a diretora de RH do escritório Tozzini, Freire, Teixeira e Silva Advogados, Cláudia Meirelles. A empresa encomendou, há dois anos, um workshop in company, de 14 horas-aula, formatado especialmente para a área de advocacia. Cláudia explica que os termos técnicos utilizados pelos advogados são comuns e aceitáveis. Sem problemas, portanto. "Notamos, entretanto, algumas falhas como falta de capacidade de concisão e de organização de ideias", aponta.
O universo da escrita no escritório é feito em grande parte por e-mails, além dos processos. Por causa deles, conta Cláudia, as pessoas ficaram mais expostas na sua forma de escrever. O problema com os e-mails, afirma, é que são redigidos muito rapidamente, sem que o autor tenha maior cuidado com o conteúdo e com a forma. Mas ela discorda da prática: "Não é porque é e-mail que tenho de escrevê-lo em segundos", observa a diretora de RH, ressaltando que se trata também de um problema de mudança de comportamento. "A efetividade da resposta não está na rapidez, mas na qualidade do que foi escrito." O escritório também realizou internamente um workshop sobre língua portuguesa para o quadro administrativo.
A funcionária do setor jurídico do Banco Itaú, Margareth Bierwagen, foi uma das alunas de língua portuguesa há quase três anos. Teve aulas de quatro horas, aos sábados, por seis meses, só estudando gramática. "Eu me senti no ginasial, tal o detalhamento do que foi dado", lembra. Ela já havia participado de outros cursos dentro do banco, mas queria uma visão geral e aperfeiçoamento na língua, porque é seu "instrumento de trabalho". "Hoje, tenho mais naturalidade e rapidez para escrever, porque dúvidas de grafia ou concordância já não me atrapalham, nem me travam, como antes".
Pontuação e crase
A professora de português da Unicamp, Bete Masini, conhece a realidade das organizações, dos executivos e dos gerentes, além de dar curso para os funcionários da Universidade. "As empresas estão realmente preocupadas com a escrita de seus colaboradores", reforça Bete. E quais são os problemas? "Pontuação, por exemplo, é caso sério. Crases também. E falta de ordenação de parágrafos". No último caso, ela diz que os textos dos funcionários que recebe para avaliar, sem que se identifiquem, mostram total desarticulação entre cada parágrafo: "O primeiro trata de um dado item. O segundo já desvia para outro. E não é incomum que o terceiro parágrafo volte ao tema inicial, ou então acrescente novos dados que concorrem para prejudicar o entendimento."
E há mais: a escolha do vocabulário. "Muitos começam o e-mail com 'prezado senhor" e terminam com 'um beijo'". Outro problema refere-se aos pronomes. Este, esse, ele, isso. "A utilização inadequada dos pronomes não deixa claro a que exatamente a pessoa se refere".
Bete concorda com Cláudia Meirelles quanto à necessidade de demora maior na redação de e-mails. "Digo que o texto precisa 'dormir' um pouco antes de ser enviado". Ela aconselha ao autor que, depois de escrever, levante-se um pouco, tome um café e só aí volte a ler o texto. "Dessa forma, ele virá sem a memória do que escreveu e poderá analisar seu texto mais objetivamente, como um leitor". Para ela, a preocupação com o bom português nas empresas vem de quatro ou cinco anos, "e os e-mails têm mesmo tudo a ver com isso".
Lá como cá
Empresas americanas investem mais de 3 bilhões de dólares em cursos de reciclagem do próprio idioma
O e-mail não é considerado só vilão da língua portuguesa, mas também do inglês, conforme aponta uma pesquisa feita em 2004 pela norte-americana National Comission on Writing (Comissão Nacional da Escrita) com 53 grandes empresas. O estudo mostrou que um terço dos funcionários ofende o idioma em seus e-mails. Juntas, essas empresas gastam US$ 3,1 bilhões por ano com cursos de reciclagem.
Uma das conclusões do estudo, por exemplo, mostra bem o que pode representar de ruim para a língua essa essencial ferramenta de comunicação: "E-mails são uma das maiores causas de má comunicação (miscommunication). E o pior é que se pode conferir a grafia, mas não as ideias".
Metade das empresas declarou que leva, sim, em consideração a escrita do inglês para a decisão de contratação ou não de um candidato. Pessoas que não escrevem ou não se comunicam claramente, registra o levantamento, não são contratadas e dificilmente serão consideradas para promoções. Um dos diretores que respondeu à pesquisa disse que a escrita pobre poderá ser "extremamente prejudicial", e o autor não deverá ser considerado para nenhum tipo de vaga.
Ensino de língua portuguesa a profissionais de diversas áreas
Escola garante o aprendizado do idioma com qualidade superior
Dominar o próprio idioma é imprescindível para quem quer ocupar lugar de destaque no mercado de trabalho. Tanto na área pública quanto na empresarial, a capacidade de expressão é um grande diferencial para os candidatos. Acostumados a dar mais valor a línguas estrangeiras, executivos começaram a dar prioridade à reciclagem de seus conhecimentos no próprio idioma. Os que almejam por uma vaga na área pública há tempos já sabem como os concursos cobram de maneira minuciosa o conhecimento da norma culta em língua portuguesa.
O sucesso do CAP - Centro de Aperfeiçoamento em Português é a prova de um aumento na demanda desse tipo de aperfeiçoamento, que veio com a intensificação da comunicação interna: a explosão das mensagens on-line para fechar negócios. Estrategicamente, algumas empresas já usam como critério de seleção a redação dos candidatos. A equipe do CAP tem participado ativamente nessa área também.
No quadro de alunos do CAP, os profissionais de nível universitário são maioria absoluta: mais de 70%. Eles voltaram às salas de aula para aprimorarem os conhecimentos sobre a língua portuguesa, informa Carolina Castro, diretora da escola. O nível de formação desses profissionais leva-os a exigir de si próprios comunicação em norma culta. "Muitas vezes, a pessoa não tem noção do seu nível de conhecimento e acaba por superestimá-lo", afirma ela.
O CAP foi criado em 1997 para ministrar cursos de redação para vestibulares. Acabou expandindo suas atividades para outros cursos, contando com uma equipe de professores em constante treinamento. A palavra "aperfeiçoamento" no nome da escola traduz-se totalmente na prática. Os cursos são voltados aos alunos: apostilas, plantões de dúvidas e turmas pequenas garantem o aprendizado de todos. Por vontade própria, ou enviados por empresas, os alunos vão ao CAP para melhorar sua capacidade de expressão verbal ou escrita. Muitos são, por exemplo, os interessados em desenvolver a redação. "Eles têm a ambição de comunicar-se bem, o que implica também a ampliação de vocabulário", diz Carolina.
Gramática e estilo
Como explica a coordenadora pedagógica do CAP, Clarice Andrade, não se pode deixar a gramática de lado. "Muitas vezes, há falhas graves que comprometem toda a comunicação", diz ela. Assim, a escola criou um curso detalhado de gramática, recomendado a quem deseja se aprofundar no assunto. O curso chama-se Português Extensivo, com aulas de ortografia, morfologia e sintaxe. Além dos outros cursos de Gramática, Redação e Interpretação de textos, a escola ainda desenvolve programas específicos para grupos em empresas.
O CAP também funciona como uma fonte de informação para todos, incluindo quem não é aluno, por meio do boletim gratuito que veicula a quem se inscreveu em seu site. A cada semana, um tema é escolhido. No site, é possível ainda ter acesso a todas as edições já veiculadas e pesquisar por assuntos de interesse.
EXECUTIVO
Escrever bem evita carreira de linhas tortas
FREE-LANCE PARA A FOLHA
Faça um teste: pense em alguma mudança em sua empresa, escreva as instruções num papel, como se outro funcionário fosse realizá-la, e guarde na gaveta por 15 dias. Se, após esse período, você mesmo não conseguir entender o que deve ser feito, pode estar sofrendo de uma "doença profissional" comum atualmente: a dificuldade de comunicar-se por escrito.
Com a "locomotiva" do excesso de informações atropelando o tempo dos profissionais e a competitividade crescente, uma atenção especial começou a ser dada à comunicação escrita -cujo domínio pode ser hoje um diferencial importante no mercado.
Prova disso é o aumento da procura por cursos de comunicação, nos últimos anos, e até mesmo a criação de cursos de português para os funcionários dentro das próprias empresas.
Segundo o consultor de comunicação empresarial Carlos Alberto Paula Motta, 47, a dificuldade para se comunicar aumenta à medida que novos instrumentos de comunicação escrita passam a ser utilizados.
"Nunca se escreveu tanto nas empresas como agora, principalmente devido ao correio eletrônico, que está substituindo o telefone", avalia o consultor e autor do livro "Como Escrever Melhor" (Publifolha, R$ 14,90).
Atrito por escrito
A importância que as empresas dão para a redação clara e correta de textos do dia-a-dia do funcionário pode ser explicada, em parte, por problemas de comunicação e de relacionamento que muitas enfrentam e que às vezes levam a desentendimentos internos ou mesmo à perda de clientes.
"Com a velocidade das transformações e a importância da otimização do tempo, a clareza da comunicação passou a ser requisito fundamental para o sucesso da empresa", afirma José Walter Toledo Silva, 57, diretor da Unicell Morumbi.
Volta às aulas
"Já tivemos problemas na área de negócios pela falta de habilidade de comunicação escrita de alguns funcionários. Por isso decidimos implementar um curso de redação empresarial", diz a consultora de desenvolvimento humano da ABB (Asea Brown Bovery), Sionara Andrade, 30. A Itaú Seguros é outra empresa que optou por oferecer cursos de redação de cartas, relatórios e memorandos e de comunicação escrita, entre outros, aos funcionários de cargos superiores.
"Os textos são lidos, relidos e reescritos para garantir a correta compreensão do que desejamos informar, afinal, tudo em nossa empresa é escrito", explica Luiz Francisco Tasso, 41, gerente de desenvolvimento profissional.
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